Cristão em tempo integral


Exposição em Colossenses 2 e 3

Muitos, como eu, já tiveram a experiência de ouvir de um chefe, principalmente se tratando do primeiro emprego: “Eu preciso que você seja mais pró-ativo”. É interessante pensar sobre o que significa ter essa “pró-atividade”: ir além de ordens dadas pela chefia, ter uma percepção aguçada das necessidades da organização e zelar pelo bem comum e qualidade do trabalho. Isso exige que o funcionário abandone a preguiça e se torne um verdadeiro trabalhador.

Muitos jovens que arranjam seu primeiro emprego são assim, desleixados e indisciplinados, porque hoje em dia perdem grande tempo da adolescência assistindo maratonas de séries e jogando video-games sem se preocupar com seu amadurecimento para uma vida adulta. Quando chegam ao trabalho, tem uma vida dividida, preguiçosos em casa e obrigados a obedecer ordens no emprego. Eis um funcionário preguiçoso, aquele que finge que trabalha para manter o emprego. É daquele tipo de funcionário que precisa que sempre digam a ele tudo o que devem fazer, o tempo todo. Infelizmente, essa descrição serve a muitos cristãos, que vivem uma vida dividida entre os hábitos do mundo e uma aparência de santidade, fruto de nada mais que uma crosta que esconde um coração ímpio.

Quais são as características de um cristão genuíno, um verdadeiro servo de Deus? Vamos estudar duas passagens de Colossenses, que pode nos dar orientações para que não caiamos em armadilhas e desenvolvamos um amadurecimento cristão.

“Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que é que vocês, então, como se ainda pertencessem a ele, se submetem a regras:
“Não manuseie! ” “Não prove! ” “Não toque! “?
Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos.
Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne.”
Colossenses 2:20-23

Paulo nesse capítulo inteiro faz uma defesa contra uma influência dualista que vinha afetando os cristãos daquela época. A influência do dualismo faz com que se negue a influência de Cristo sobre tudo. O dualismo, fruto do paganismo (v8), divide o mundo entre matéria e forma, sagrado e profano, espirito e carne, e tem como característica a construção de um ideal de santidade que é separado deste mundo. O dualismo é o que dá origem a certas regras e costumes que remetem a costumes monásticos, como se a santidade se alcançasse ao se isolar das coisas cotidianas e se aproximar de um ideal de “sagrado”. Nisso, Cristo teria influência apenas no âmbito “sagrado”, “espiritual”, e nós, para atingirmos tal santidade, teríamos que nos afastar do que é “mundano”.

Não é difícil reconhecer um cristão influenciado pelo dualismo. Ele não entende que suas tarefas cotidianas são práticas espirituais. Está o tempo todo buscando ansiosamente a nova moda gospel, a música de adoração que o faz chorar mais, aquele êxtase no momento de culto, como se isso necessariamente o aproximasse mais de Deus. Geralmente ele faz aquela cara de “santo”, como se o fato de não ser deste mundo significasse que sua influência neste mundo deve ser nula. Ele vive esperando a volta de Jesus, e não está errado nesse ponto, porém faz isso como se nada tivesse a fazer enquanto isso, pois não entende que TUDO é espiritual.

Paulo queria evitar que os crentes em Colossos caíssem nesse tipo de armadilha ao lhes apresentar o que chamava de “pleno entendimento do evangelho de Cristo” (v3). Ao dizer que “Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e, por estarem nele, que é o Cabeça de todo poder e autoridade, vocês receberam a plenitude” (v9-10), ele atribui a Cristo todas as coisas. Quando ele diz que “pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra[...]; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a supremacia. Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude, e por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas[...], estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz.” (1:16-20), ele diz que em Cristo, que detêm em tudo a supremacia, todas as coisas se renovam. Não somente seus domingos ou sábados, não somente as festas e liturgias, mas todas as coisas agora são reconciliadas e restauradas para o ideal do reino de Deus.

Nós morremos e fomos ressuscitados com Cristo. Isso significa que um cristão genuíno tem uma nova vida, não há espaço para divisões. “Isso aconteceu quando vocês foram sepultados com ele no batismo, e com ele foram ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos. Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão da sua carne, Deus os vivificou juntamente com Cristo” (2:12-14). Um cristão genuíno foi vivificado com Deus, juntamente com Cristo, não pertence mais a este mundo, e não precisa seguir ordens e mandamentos humanos como se ainda pertencessem a este mundo (v20-22). São regras aparentemente sábias, mas nos faz acomodar num status quo de santidade, e não refreiam a carne.

Muitos identificam o cristianismo com um simples moralismo. Esta semana ouvi de uma pessoa indecisa quanto a religião que não deseja ser religioso (que bom!) porque sente que isso tiraria sua liberdade de fazer o que quisesse. Eu disse a ele que o cristianismo faz exatamente o contrário: ele nos liberta.

“Portanto, como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência.
Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou.
Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito.
Que a paz de Cristo seja o juiz em seus corações, visto que vocês foram chamados a viver em paz, como membros de um só corpo. E sejam agradecidos.
Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seus corações.
Tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai.”
Colossenses 3:12-17

Paulo fala de um revestimento, características que devem andar conosco todo o tempo e não somente em certos momentos ou práticas. É como se ele estivesse pedindo “pró-atividade” aos cristãos, que não sejam divididos, mas trabalhadores preocupados com a vivência do reino. Não precisamos que nos digam o tempo todo o que fazer, mas sim de uma mudança interior que nos capacite para essa vivência.

Podemos notar nesse trecho que:

  • O revestimento que ele nos fala é consequência de sermos povo escolhido, santo e amado (v12);
  • As características que ele nos fala apresentam evidências em relacionamentos.
  • Todas elas tem um elo perfeito: o amor.
  • Por fim, Paulo nos exorta para que habite em nós a Palavra, que a ensinemos uns aos outros. É ela que deve nos guiar para a vontade de Deus, sempre dando graças a Deus Pai.

Que sejamos então cristãos genuínos, trabalhadores na causa do reino, pró-ativos, soldados armados com a Palavra, para glória do grande Nome. Amém.

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